A abordagem neuroafirmativa procura compreender características neurodivergentes, como as associadas ao autismo ou à PHDA, como formas legítimas de variação neurocognitiva, trabalhando o sofrimento e a incapacidade sem tomar como objetivo terapêutico tornar a pessoa mais semelhante ao funcionamento neurotípico.
Clarificação dos termos
É comum escutarmos termos como neurodesenvolvimento, neurodiversidade ou neurodivergente de forma intercambiável, contudo estes termos revelam experiências diferentes que importa esclarecer.
Neurodesenvolvimento
Processo através do qual o cérebro e o sistema nervoso se formam, amadurecem e organizam ao longo do desenvolvimento, influenciando capacidades como atenção, linguagem, aprendizagem, movimento e interacção social. As perturbações do neurodesenvolvimento caracterizam-se por dificuldades significativas nestas áreas com início durante o período do desenvolvimento.
Neurodivergente
Termo descritivo utilizado para pessoas cujo funcionamento ou desenvolvimento neurocognitivo difere do que é considerado neurotípico. Pode incluir, entre outros, autismo, PHDA e dislexia. Não constitui, por si só, um diagnóstico médico.
Neurodiversidade
Diversidade natural existente entre os seres humanos na forma como o cérebro se desenvolve e funciona. O conceito engloba todo o espectro de funcionamento neurocognitivo, incluindo pessoas neurotípicas e neurodivergentes.
Neurotípico
Pessoa cujo desenvolvimento e funcionamento neurocognitivo se encontram dentro dos padrões mais comuns ou socialmente esperados. É o contraponto descritivo de neurodivergente, não um diagnóstico.
Benefícios e eficácia da Terapia Neuroafirmativa
Uma abordagem neuroafirmativa não constitui, por si só, uma nova modalidade de psicoterapia. Trata-se sobretudo de uma forma de compreender e adaptar intervenções psicológicas já existentes às características, necessidades, preferências e contexto de cada pessoa neurodivergente.
Na prática, modelos com eficácia estabelecida, como a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de aceitação e compromisso ou outras abordagens psicoterapêuticas, podem ser adaptados tendo em consideração diferenças na comunicação, processamento sensorial, funcionamento executivo, regulação emocional, necessidade de previsibilidade, atenção, interesses e formas de relacionamento.
Entre os potenciais benefícios encontram-se:
- uma maior sensação de segurança e compreensão durante a terapia
- melhor adequação da comunicação entre terapeuta e pessoa
- maior participação nas decisões terapêuticas
- redução da pressão para mascarar características neurodivergentes
- maior reconhecimento das necessidades sensoriais e cognitivas
- desenvolvimento de estratégias compatíveis com o funcionamento real da pessoa.
O valor da psicoterapia neuroafirmativa não deve ser apresentado como a existência de uma técnica terapêutica nova ou comprovadamente superior. O contributo consiste sobretudo em garantir que intervenções baseadas na evidência são realizadas de forma mais acessível, individualizada e compatível com a forma como cada pessoa funciona, sem transformar características neurodivergentes inofensivas em sintomas que precisam de ser eliminados.