Skip to main content

Que outras perturbações do neurodesenvolvimento existem?

Para além da PHDA, Perturbação do Espetro do Autismo e dislexia, existem várias outras perturbações do neurodesenvolvimento reconhecidas nas classificações internacionais.

As principais são:

  • Perturbação do Desenvolvimento Intelectual, que se caracteriza por limitações significativas no funcionamento intelectual e no funcionamento adaptativo, com início durante o período do desenvolvimento.
  • Perturbações da Comunicação, que incluem dificuldades persistentes na aquisição e utilização da linguagem, fala ou comunicação. Aqui se enquadram, entre outras, a Perturbação do Desenvolvimento da Linguagem, perturbações dos sons da fala e perturbações da fluência, como a gaguez.
  • Perturbação Específica da Aprendizagem com défice na matemática, frequentemente designada discalculia. Pode afetar o sentido numérico, a memorização de factos aritméticos, o cálculo e o raciocínio matemático.
  • Perturbação Específica da Aprendizagem com défice na expressão escrita, que pode envolver dificuldades persistentes na ortografia, gramática, organização ou produção escrita. O termo disgrafia é frequentemente utilizado, embora não corresponda exactamente a uma categoria diagnóstica autónoma no DSM-5-TR.
  • Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação, frequentemente conhecida como dispraxia, caracterizada por dificuldades na aquisição e execução de competências motoras coordenadas que interferem com atividades quotidianas, académicas ou profissionais.
  • Perturbação de Movimentos Estereotipados, na qual existem movimentos motores repetitivos aparentemente sem finalidade, podendo em alguns casos interferir significativamente com o funcionamento ou provocar lesões.
  • Perturbações de tiques, incluindo a Síndrome de Tourette, a perturbação de tiques motores ou vocais persistentes e a perturbação de tiques provisória.

A classificação exata varia ligeiramente entre o DSM-5-TR e a ICD-11, mas ambos agrupam estas condições dentro das perturbações do neurodesenvolvimento (American Psychiatric Association, 2022; World Health Organization, 2022).

Podem coexistir vários diagnósticos?

Sim. É relativamente frequente uma pessoa apresentar mais do que uma perturbação do neurodesenvolvimento em simultâneo. A presença de uma não exclui as restantes.

Por exemplo, uma pessoa pode ter PHDA e autismo, PHDA e dislexia, autismo e perturbação do desenvolvimento da coordenação, ou combinar várias dificuldades específicas da aprendizagem, como dislexia e discalculia.

A coexistência é clinicamente importante porque pode influenciar a forma como os sintomas se manifestam, o impacto no quotidiano e as necessidades de apoio. Por esse motivo, a avaliação não se deve limitar à identificação de um único diagnóstico, mas procurar compreender o perfil global de funcionamento da pessoa.

As classificações diagnósticas atuais reconhecem explicitamente esta possibilidade de coexistência entre diferentes perturbações do neurodesenvolvimento (American Psychiatric Association, 2022; World Health Organization, 2022).

Que tratamentos existem?

Perturbação do Desenvolvimento Intelectual

A intervenção é habitualmente multidisciplinar e adaptada ao perfil de funcionamento da pessoa. Pode incluir treino de competências adaptativas e de autonomia, terapia da fala, terapia ocupacional, apoio educativo, desenvolvimento de competências sociais e comunicacionais e apoio à integração escolar, profissional e comunitária.

Quando existem dificuldades comportamentais significativas, é importante perceber a função do comportamento e intervir também sobre fatores ambientais, comunicacionais ou sensoriais que o possam desencadear ou manter. Intervenções comportamentais podem ser eficazes no desenvolvimento de competências de comunicação, autonomia e aprendizagem (Ho et al., 2020).

A psicoterapia pode ser utilizada para problemas como ansiedade, depressão ou regulação emocional, desde que seja adaptada às capacidades cognitivas e comunicacionais da pessoa. Não existe medicação para tratar a perturbação do desenvolvimento intelectual em si; a medicação é utilizada quando existem condições associadas que a justifiquem.

Perturbações da Comunicação

O tratamento depende da dificuldade específica e é realizado sobretudo através de terapia da fala.

Nas perturbações dos sons da fala são utilizadas intervenções fonológicas e articulatórias. Na gaguez, a terapia pode incluir estratégias dirigidas à fluência, modificação da gaguez e ao impacto emocional e comunicacional que esta provoca. O objetivo não tem necessariamente de ser eliminar toda a disfluência, mas permitir uma comunicação eficaz e reduzir o sofrimento ou evitamento associado.

Discalculia

A intervenção é essencialmente educativa e especializada, trabalhando diretamente as competências matemáticas em dificuldade.

Perturbação Específica da Aprendizagem com défice na expressão escrita

A intervenção depende da natureza da dificuldade. Pode envolver trabalho específico sobre ortografia, correspondência entre sons e grafemas, construção frásica, gramática, organização de ideias, planeamento e revisão do texto.

Quando existe uma componente motora importante na escrita manual, pode ser útil uma avaliação por terapia ocupacional.

Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação ou dispraxia

A intervenção é realizada sobretudo através de terapia ocupacional e fisioterapia, incidindo nas atividades concretas que a pessoa necessita de realizar.

O exercício e a atividade física devem ser incentivados, adaptando as exigências às capacidades da pessoa. Na escola ou no trabalho podem ser necessárias adaptações do tempo, dos instrumentos utilizados ou da forma de executar determinadas tarefas.

Perturbação de Movimentos Estereotipados

Nem todos os movimentos estereotipados necessitam de intervenção. Se não provocarem lesão, sofrimento ou interferência relevante no funcionamento, pode não existir qualquer razão clínica para os tentar suprimir.

Quando existe impacto significativo, deve primeiro compreender-se quando, onde e por que razão o comportamento ocorre. As abordagens comportamentais são as mais estudadas e podem incluir modificação dos antecedentes, enriquecimento ambiental, reforço de comportamentos alternativos e outras estratégias baseadas na função do comportamento (Rapp & Vollmer, 2005; Katherine, 2018).

Nos movimentos autolesivos, a prioridade é prevenir lesões e identificar fatores médicos, sensoriais, ambientais ou comunicacionais que possam estar envolvidos.

Perturbações de tiques e Síndrome de Tourette

Nem todas as pessoas com tiques precisam de tratamento. Quando os tiques não provocam sofrimento ou prejuízo funcional significativo, psicoeducação e acompanhamento podem ser suficientes, já que a intensidade dos tiques pode variar ao longo do tempo.

Quando é necessária intervenção, uma das opções de primeira linha é a CBIT — Comprehensive Behavioral Intervention for Tics, que inclui treino de reversão do hábito e estratégias para reconhecer e gerir situações associadas ao aparecimento dos tiques. As recomendações da American Academy of Neurology favorecem a CBIT como primeira opção quando está disponível (Pringsheim et al., 2019).

Em casos com maior impacto podem ser utilizados medicamentos. Clonidina ou guanfacina podem ser particularmente úteis quando coexistem tiques e PHDA. Em situações seleccionadas podem ser utilizados medicamentos como aripiprazol ou risperidona, após ponderação dos potenciais efeitos adversos. Existem ainda outras opções para casos específicos e, em situações muito graves e resistentes, tratamentos especializados como estimulação cerebral profunda.

Também é importante avaliar e tratar condições frequentemente associadas à Síndrome de Tourette, como PHDA, perturbação obsessivo-compulsiva, ansiedade ou perturbações do humor.

Conheça os nossos profissionais

Na Mind House, dispomos de profissionais altamente especializados no diagnóstico e tratamento de Perturbações do Neurodesenvolvimento. Venha conhecê-los melhor.