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O que é o autismo?

O autismo, ou Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), é uma condição do neurodesenvolvimento que influencia a forma como a pessoa comunica, interage socialmente, processa informação e experiencia o mundo.

Pode manifestar-se através de diferenças na comunicação e reciprocidade social, necessidade de maior previsibilidade, interesses muito intensos ou específicos, padrões repetitivos de comportamento e particularidades no processamento sensorial, como maior ou menor sensibilidade a sons, luz, texturas, cheiros ou contacto físico (American Psychiatric Association, 2022).

Fala-se em espetro porque o autismo apresenta uma grande diversidade de manifestações. Algumas pessoas necessitam de apoio significativo no quotidiano, enquanto outras são bastante autónomas e apenas identificam as suas dificuldades mais tarde, por vezes já na idade adulta.

O autismo não é uma doença adquirida nem resulta da educação ou da relação com os pais. Trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento presente desde fases precoces da vida, embora possa só ser reconhecida mais tarde.

Numa perspectiva neuroafirmativa, procura-se compreender o perfil individual de cada pessoa, incluindo dificuldades, necessidades, capacidades e pontos fortes, em vez de reduzir o autismo a uma lista de défices.

Que níveis de autismo existem?

No DSM-5-TR, a Perturbação do Espectro do Autismo pode ser descrita segundo três níveis de necessidade de suporte. Estes níveis procuram indicar a intensidade do apoio necessário no quotidiano e não medir o “grau de autismo” da pessoa (American Psychiatric Association, 2022).

Nível 1 – necessita de suporte
Existem dificuldades perceptíveis na comunicação e interacção social, assim como rigidez, dificuldades de adaptação à mudança ou problemas de organização e planeamento. A pessoa pode ter uma vida relativamente autónoma, mas necessitar de apoio em determinadas áreas.

Nível 2 – necessita de suporte substancial
As dificuldades de comunicação social e os padrões restritos ou repetitivos têm um impacto mais marcado no funcionamento. Mudanças de rotina podem provocar sofrimento significativo e pode ser necessário apoio regular em diferentes contextos.

Nível 3 – necessita de suporte muito substancial
Existem dificuldades mais intensas na comunicação e interacção social e maior interferência dos padrões repetitivos, rigidez ou dificuldades de adaptação no quotidiano. A pessoa pode necessitar de apoio significativo e continuado.

É importante perceber que estes níveis não correspondem a categorias rígidas como “autismo ligeiro, moderado ou grave”. A mesma pessoa pode, por exemplo, necessitar de pouco apoio numa área e de muito apoio noutra. As necessidades também podem mudar ao longo da vida e consoante o contexto.

Por isso, actualmente é preferível falar em necessidades de suporte e descrever o perfil individual da pessoa, incluindo comunicação, autonomia, funcionamento cognitivo, processamento sensorial e capacidade de adaptação, em vez de resumir todo o funcionamento a um único nível.

Pode ser diagnosticado em idade adulta?

Sim. O autismo pode ser diagnosticado pela primeira vez na idade adulta, incluindo em pessoas que passaram muitos anos sem uma explicação clara para determinadas dificuldades sociais, sensoriais ou de adaptação.

O facto de o diagnóstico surgir apenas em adulto não significa que o autismo tenha começado nessa altura. Trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento, pelo que as características estão presentes desde fases precoces da vida, embora possam ter passado despercebidas, ter sido compensadas ou mascaradas durante muitos anos (American Psychiatric Association, 2022).

Em alguns adultos, as dificuldades tornam-se mais evidentes quando aumentam as exigências sociais, profissionais ou familiares, ou quando as estratégias utilizadas para se adaptar deixam de ser suficientes. Também é frequente que a pessoa procure avaliação depois de reconhecer características semelhantes em familiares ou após receber outro diagnóstico, como PHDA, ansiedade ou depressão.

A avaliação em idade adulta procura reconstruir a história do desenvolvimento, compreender o funcionamento actual e identificar padrões persistentes de comunicação social, interesses, comportamentos repetitivos, necessidade de previsibilidade e particularidades sensoriais. Sempre que possível, pode ser útil integrar informação de familiares ou outros dados da infância.

Por isso, é perfeitamente possível receber um diagnóstico de autismo em adulto, desde que a avaliação demonstre que as características fazem parte de um padrão de neurodesenvolvimento presente ao longo da vida.

Como se diagnostica?

O diagnóstico de autismo no adulto é clínico e resulta de uma avaliação especializada e detalhada. Na nossa prática, a avaliação é realizada por médicos psiquiatras e integra a história de desenvolvimento, o funcionamento atual, as características da comunicação e interacção social, os padrões de comportamento e interesses, as particularidades sensoriais e o impacto destas características no quotidiano.

Sempre que adequado, são também utilizadas escalas e instrumentos validados, que ajudam a sistematizar a informação recolhida. No entanto, nenhum questionário ou teste isolado permite estabelecer, por si só, o diagnóstico.

A avaliação procura ainda perceber se as características estão presentes desde o desenvolvimento precoce e distinguir o autismo de outras condições que podem apresentar manifestações semelhantes ou coexistir com ele, como PHDA, ansiedade, perturbações do humor ou outras condições do neurodesenvolvimento. As recomendações internacionais salientam precisamente a importância da história desenvolvimental, da observação clínica directa e da avaliação de diagnósticos diferenciais (NICE, 2012).

Na avaliação do autismo no adulto, recorremos a um protocolo estruturado com a escala ADOS, organizado em seis sessões distribuídas por duas fases. O ADOS é um instrumento de observação clínica estruturada que auxilia a avaliação de características compatíveis com autismo, mas o resultado é sempre interpretado no contexto global da avaliação clínica.

O diagnóstico final resulta, portanto, da integração entre entrevista clínica, história de desenvolvimento, observação direta, instrumentos validados e diagnóstico diferencial, e não de uma única escala ou pontuação.

Que tratamentos existem?

O autismo não é uma doença que tenha de ser “curada”. A intervenção deve ser individualizada e dirigida às necessidades, dificuldades e objectivos de cada pessoa.

A psicoterapia adaptada ao autismo pode ser útil quando existem ansiedade, depressão, dificuldades de regulação emocional, trauma, baixa autoestima, dificuldades relacionais ou sofrimento associado ao encobrimento. As intervenções tendem a beneficiar de maior estrutura, linguagem clara, menor ambiguidade e consideração das particularidades sensoriais e comunicacionais da pessoa (Moore et al., 2024).

Também podem ser úteis intervenções dirigidas a competências sociais ou comunicacionais, autonomia, atividades da vida diária, organização do quotidiano e integração profissional, sempre que estas correspondam a necessidades identificadas pela própria pessoa. As recomendações clínicas incluem ainda adaptações ambientais e laborais quando necessário.

Uma abordagem neuroafirmativa procura não transformar comportamentos ou características autistas inofensivas em alvos terapêuticos apenas por se afastarem da norma. O foco deve estar sobretudo na redução do sofrimento, aumento da autonomia, melhoria da qualidade de vida e criação de condições ambientais mais adequadas.

Não existe atualmente medicação destinada a tratar as características nucleares do autismo. Os medicamentos podem, contudo, ser indicados para condições que coexistam com o autismo, como ansiedade, depressão, PHDA, perturbações do sono ou outros problemas psiquiátricos, seguindo as recomendações específicas para cada condição. Antidepressivos e antipsicóticos não são recomendados de rotina para tratar as características nucleares do autismo em adultos.

A investigação sugere que intervenções dirigidas a adultos autistas podem produzir melhorias em áreas como saúde mental e qualidade de vida, embora os estudos sejam ainda heterogéneos e não permitam identificar uma única intervenção como adequada para todas as pessoas (Loizou et al., 2024).

Assim, o tratamento deve resultar de um plano individual, que pode combinar psicoterapia, psicoeducação, estratégias de regulação sensorial e emocional, apoio às funções executivas, adaptações no trabalho ou estudo e tratamento das condições associadas.

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